[Voltaire]
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
A piscina

Fazia pouco mais de cinco minutos que Jonas estava com os pés mergulhados na piscina. Passava da meia noite de 31 de dezembro e ele não entendia o porque as pessoas achavam aquilo relaxante, sentia parte de sua perna molhada e a outra parte seca.
Jonas gostava mesmo de ficar submerso, com a água entrando em seus ouvidos e "ouvindo" o silêncio. A sensação de paz era grande e muitas vezes ele queria poder ser o Aquaman para respirar embaixo d'água e ficar ali para sempre.
A água era uma constante na vida de Jonas. Bebia litros por dia, adorava ficar embaixo do chuveiro, brincando com as ondas no mar e submerso na piscina.
Alguns fogos ainda estouravam tardiamente, as pessoas a sua volta bebiam e conversavam. Alguns ficavam parados olhando para o céu, contemplando-o. De repente Jonas salta e decide testar o fôlego mergulhado, tinha tomado algumas taças de vinho e de champagne para a hora do brinde. No fundo da piscina está o silêncio absoluto, não há o barulho dos fogos estourando, nem da risadaria das pessoas, apenas ouve-se muito ao longe a música alta, quase imperceptível. Ouvindo um leve estrondo Jonas abre os olhos que ardem um pouco por conta do cloro. Seu primo estava ao seu lado. "Ta se afogando?"
Jonas riu. "Não, estou fugindo". O menino sardento e riso aberto riu e perguntou de que ele estava fugindo. "Do mundo". Respondeu Jonas. Ficaram os dois mergulhados na piscina por horas, até os dedos ficarem engilhados, com a ausência de som, ouvindo o silêncio.
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
Divagações na chuva.

O caminho para o trabalho era até fácil. Normalmente não passava mais de quinze minutos no trânsito, mesmo engarrafado. Aquela segunda-feira era diferente, já fazia mais de vinte minutos que estava praticamente parado em uma das principais vias da cidade. Ficava divagando que se tivesse perto da orla poderia ficar vendo o mar. O vai e vem das ondas, os barcos de pesca, os meninos jogando futebol na areia... essas simples visões do cotidiano lhe acalmavam. Muitas vezes pensava em quando era criança e queria ter aproveitado mais por morar tão perto da praia. Poderia ter aprendido a surfar, mas achava meio ridículo tentar isso com seus agora trinta anos.
O dia estava cinzento e de repente as gotas começaram a cair no vidro do carro. Ele pensou em praguejar, pois havia tirado o carro há menos de uma semana da concessionária e gostava do cheiro de carro novo. Tinha medo que a chuva fizesse o cheiro sair mais rápido.
Olhou de relance para o pegeout prata estacionado ao seu lado. A mulher loira, também na faixa dos trinta anos, apaga o cigarro com pressa e o joga pela janela. A chuva começa a engrossar e a mulher liga o limpa vidro fazendo ar de impaciência. Jonas aproveita o carro parado para ficar olhando as gotas de chuvas correrem irriquietas pelo vidro. Quando aciona o limpador esboça um leve sorriso achando que as gotas parecem fugir, querendo permanecer na superfície lisa.
Jonas também havia passado muitos anos da sua vida assim, fugindo do que o magoava, não encarando de forma direta o que o fazia se sentir triste e melancólico. Fazia pouco mais de dois anos que quisera começar a encarar e resolver seus dilemas. Exorcizar seus próprios demônios, ele dizia. Estava longe de ser o rapaz alegre da adolescência e do início de sua vida adulta, mas agora ele não fugia mais como as gotas de chuva no painel do carro.
O trânsito voltava a andar, de longe viu dois homens empurrando um velho corcel bege para o estacionamento de uma loja. A mulher do pegeout prata ficou para trás, limpando com rapidez a chuva que caia forte.
Domingo, Novembro 15, 2009
Os desejos ao nascer do sol.

Fazia dias que ele acordava cedo para ver o sol nascer. Não que tivesse uma vista fantástica de sua varanda, mas da janela do seu quarto podia ver uma fresta da bola incandescente que iluminava a escuridão pouco a pouco.
Pedia em uma pequena prece a Deus para aquele ser um dia mágico. Queria encontrar o amor da sua vida, esbarrando sem querer em uma esquina. Ela sorriria para ele e ele arriscaria convidá-la para um café. Ganharia um aumento. Seu esforço enfim seria reconhecido e teria um aumento no salário. Não tão grande, mas também não tão pequeno. Um na quantia certa, que não se achasse demais por estar ganhando tanto dinheiro e que pudesse pagar suas contas e desejos com alguma folga. Também queria pedir para sair cedo do trabalho e caminhar na orla quando o sol se punha. Fazia anos que não fazia aquilo, tinha medo de sentar na areia e ser assaltado e levarem o celular, máquina e a correntinha de ouro de estimação que ganhou de sua tia mais velha quando nasceu.
Então o sol nascia como nos outros dias e Jonas o fitava com sua prece. Em seu íntimo ele sabia que nenhuma daquelas preces se realizaria. Estaria assoberbado de trabalho, como sempre, e esqueceria de sua vida pessoal. Esquecera o quanto era ruim caminhar na orla ao entardecer, como o vai e vem de pessoas que lhe tiravam a visão do mar e o deixavam neurótico com sua segurança.
Sim, aquele seria apenas um dia como todos os outros tem sido em sua vida. Sem surpresas. Sem realizações. Sem mágica.



